domingo, 15 de fevereiro de 2015

Crônicas: Do Prazer da Primeira Leitura, por Mozart Neto

Em meio à confusão de cores, formas e tamanhos que meus olhos encaram na estante abarrotada de livros, tento identificar qual é o sentimento que me move na busca por um autor, uma história que pode invadir meu coração, preenchê-lo de significados distintos e sensações que assumem luz desconhecida, e por isso mesmo excitante. Meus sentidos apontam para um exemplar em especial: "É este aqui". Afasto os livros que se situam entre o meu novo livro favorito; esse trabalho exige um pouco de esforço, mas a recompensa é válida. Não sintam inveja, amigos, pois retornarei a vocês em breve. Deslizo suavemente meus dedos sobre a capa limpa e recém-tirada da embalagem, as marcas do tempo ainda não são perceptíveis na minha relíquia de culto, no conjunto de histórias de vidas que aquelas páginas contêm. Confiro se há algum defeito na lombada ou alguma mancha engordurada praticada por um meliante que insiste em se manter oculto. Feitas as investigações preliminares, vou para as orelhas do livro e a contracapa.
Não consigo acompanhar a velocidade de meus olhos, eles parecem percorrer longas distâncias à procura de algo que não sei bem o que é. Exercito minha paciência seguindo meus instintos para saber em que pode resultar essa busca frenética. Após sentir-me esbaforido e necessitando de algum cuidado (não quero causar problemas para os outros), recolho-me para um lugar tranquilo no qual eu possa estabelecer uma comunhão com o autor do qual pretendo ser amigo, confidente de todas as horas, me apegar à algo ou alguém que desperte em mim a urgência em saborear cada página, cada linha tortuosamente trabalhada, lapidada. Acho que estou me excedendo um pouco; melhor retornar à atividade primeira.

Em busca de reclusão, quase sumo no emaranhado de estantes e livros que me rodeiam. Na verdade sou lançado a outra dimensão, em que as noções de tempo e espaço para mim não existem. Agora é a hora: é tudo ou nada, pois é assim que considero esse momento, o instante no qual colocarei à prova minhas próprias convicções sobre o texto, sobre o impacto que a palavra escrita exerce para esse pobre mortal. Avanço com certa imperícia, pois não sei em que estrada vou terminar, na encruzilhada entre decidir se continuo ou não minha jornada em questão. Veja bem, minha tarefa é executada com algum sucesso: continuo firme no andamento da leitura. Minhas mãos já se tornaram íntimas daquele amontoado de folhas de papel condensadas, meus olhos já estabeleceram perigosa cumplicidade com o tipo de fonte a ser utilizada, do tamanho das palavras que se exibem para mim de maneira promíscua. Sinto que já estou sendo fisgado, vai ser difícil me livrar dessa tentação. Retomo a consciência, coloco os pensamentos em ordem, deixo o ar oxigenar meu corpo para que eu possa retomar meu caminho sem vacilações. Ainda há algo que preciso saber antes da dar o veredicto final. Para tal, insisto mais um pouco na leitura. É o momento em que sei que estou fazendo a escolha certa. Estabeleço um breve diálogo com ela, mesmo que eu não diga palavra alguma. Ela não me conhece, talvez nem saiba que estou invadindo sua privacidade, sei que ela se deixa revelar através de suas ações e de seus pensamentos conflitantes. No fim das contas ela parece ser como eu, apesar de sermos tão díspares. De alguma forma, me sinto conectado a ela; ela desperta em mim o desejo necessário para acompanhá-la até quando for da vontade do escritor, esse cafajeste que brinca com nossas emoções. Acredito que estou pronto. Percebo que a personagem em questão tem algo a me dizer que vai além do já conheço. Existe uma novidade ali a me desconcertar, um chamado para descobrir com meus próprios olhos os rumos da história, pois também é a oportunidade de saber em que ponto vou me encontrar quando nos separarmos, o quão diferente estarei no espaço entre o ínicio e o fim da obra que assumo como minha obra. Está feito. A partir de agora, assumo os riscos, fui assombrado de todo tipo de alerta, mas nesse momento tenho aversão a todo tipo de precauções, pois a única alternativa é me atirar do topo do precipício sabendo que serei outro quando voltar à realidade.



*Essa Crônica foi escrita por Mozart Neto, novo colunista do blog.
Mozart tem dois blogs nos quais escreve, acesse:

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